Notícia Entrevista a Eduardo Lála, diretor artístico de jazz e coordenador técnico e pedagógico do projeto Rizoma

Junho 2024

Iniciado em janeiro de 2022, o projeto Rizoma pretende promover o setor da música e das artes cénicas como potenciadores da economia, da educação, do multiculturalismo e da inclusão, bem como recuperar e divulgar a cultura musical dos PALOP-TL.

Em fevereiro, Eduardo Lála viajou até São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau para liderar as residências artísticas com os alunos e professores do projeto. Hoje, faz um balanço de dois anos de projeto.

  1. Como coordenador técnico-pedagógico do projeto Rizoma que balanço faz de dois anos de projeto?

O projeto Rizoma tem sido uma experiência incrível. Começámos com o objetivo de promover a educação musical e contribuir para a integração social através da música com a criação de orquestras em São Tomé e Príncipe (STP) e Guiné-Bissau (GB). Desde então, vimos um crescimento significativo, tanto no desenvolvimento musical dos participantes, como no impacto social nas suas comunidades. O projeto tem proporcionado oportunidades únicas, promovendo valores como trabalho em equipa, disciplina e superação pessoal. Estou muito satisfeito com os resultados alcançados e otimista quanto ao futuro.

  1. Como correram as residências artísticas em São Tomé e Príncipe e na Guiné-Bissau? O que foi feito durante esses períodos?

As residências artísticas em São Tomé e Príncipe e na Guiné-Bissau foram experiências profundamente enriquecedoras. Em fevereiro, estive uma semana em cada país, trabalhando intensivamente com músicos locais, professores e alunos. Em São Tomé, fui acompanhado pelo nosso professor de guitarra Daniel Neto, que também atuou como músico convidado no concerto final. O trabalho focou-se no desenvolvimento de competências musicais, criativas e pedagógicas. A energia e motivação dos participantes foram incríveis e todos estavam empenhados em aprender e colaborar.

  1. Depois de muitos meses de formação online, como foi a primeira interação presencial com os músicos?

A primeira interação foi fantástica. Depois de ano e meio de trabalho online, foi emocionante finalmente conhecer os músicos pessoalmente. A motivação deles era visível. Estavam todos entusiasmados e prontos para abraçar o desafio das residências artísticas intensivas. A dedicação deles foi impressionante e contribuiu para o sucesso das atividades.

A energia durante as residências foi verdadeiramente contagiante. Havia uma atmosfera de colaboração e entusiasmo que nos impulsionou a trabalhar arduamente. Nos ensaios e nas sessões de aprendizagem, desenvolvemos um trabalho profundo sobre o desenvolvimento de competências técnicas e interpretativas. O repertório que abordámos incluía uma mistura de tradições musicais locais e influências contemporâneas, proporcionando uma experiência diversificada e enriquecedora para todos.

  1. Pode-nos falar sobre o repertório abordado e como foi recebido o projeto nas comunidades locais?

Em São Tomé e Príncipe, abordámos peças diversas como "Afro Blue" de Mongo Santamaria, uma adaptação do “Hino à Alegria”, “Mecê” do músico santomense Guilherme de Carvalho e "Vem a Rizoma”, uma tema original criado por professores e alunos do projeto. Em Guiné-Bissau, incluímos temas como "Na Nossa Escola”, “Ndorinha e "Tiu Bernal" do poeta e músico guineense José Carlos Schwarz. Selecionámos o repertório de forma a refletir uma fusão entre a tradição local e novas abordagens musicais, assim como temas do cancioneiro infantil de cada país, recolhido e selecionado durante o desenvolvimento do projeto. A iniciativa foi muito bem recebida nas comunidades. As pessoas mostraram-se recetivas e entusiastas, e notou-se um reconhecimento do valor da educação musical e do intercâmbio cultural que promovemos.

  1. Como correram os ensaios e os concertos finais?

Os ensaios foram intensos e extremamente produtivos. A dedicação dos professores e alunos fez toda a diferença. Os concertos finais, tanto no Hotel Pestana em São Tomé como no Centro Cultural Franco Bissau Guineense, foram momentos de celebração. As atuações foram de ótima qualidade e refletiram todo o trabalho árduo e a dedicação dos participantes. Foi emocionante ver o progresso e o empenho de crianças e jovens músicos em palco. Os concertos finais tiveram um grande impacto nas famílias e nos agentes locais, gerando um sentimento de orgulho e reconhecimento pelo esforço e talento das crianças e jovens.

  1. Qual o impacto que o projeto Rizoma teve nas comunidades de São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau?

O impacto foi muito positivo. Além de proporcionar formação musical de qualidade, o projeto ajudou a fortalecer os laços sociais e culturais nas comunidades envolvidas. Os participantes ganharam confiança, desenvolveram novas competências e sentiram uma maior ligação entre eles através da música. É sempre gratificante ver o quanto a música pode transformar e unir as pessoas.

  1. Quais são os próximos passos e objetivos do projeto Rizoma?

Os próximos passos incluem continuar a trabalhar na formação e na sustentabilidade do projeto, alcançando mais crianças e jovens em São Tomé e Príncipe e em Guiné-Bissau. Seria importante surgirem novos programas educacionais, serem estabelecidas mais parcerias e haver a possibilidade de novos apoios de forma a manter e desenvolver o trabalho que tem sido feito até agora. A música é, sem dúvida, uma ferramenta poderosa para a transformação pessoal e social, capacitando indivíduos e comunidades a alcançarem o seu pleno potencial. No caso do projeto Rizoma, é fundamental garantir a sua sustentabilidade com financiamento adicional e parcerias de longo prazo.

Temos parceiros essenciais para o sucesso do projeto. Em São Tomé e Príncipe, a Fundação da Criança e da Juventude, e em Guiné-Bissau,  a Associação Bantaba. Ambos os parceiros locais desempenham um papel crucial na implementação e coordenação das atividades no terreno. Os nossos professores do projeto Gerajazz/Orquestra Geração dão formação online semanalmente aos professores locais nos dois países, que, por sua vez, ensinam as crianças e jovens das orquestras Rizoma aplicando as metodologias e conceitos pedagógicos abordados. Eu faço a coordenação técnico-pedagógica, trabalhando com dois assessores pedagógicos, um em cada país, que apoiam diretamente no desenvolvimento e execução das atividades.