Notícia Entrevista a Bruno Santos, Diretor Artístico de Sopros e Percussão da Orquestra Geração

16.02.2024

Bruno Santos iniciou os seus estudos no Conservatório de Música da Covilhã, em guitarra clássica. No sétimo ano de escolaridade, optou por ingressar na Escola Profissional da Covilhã, escolhendo a flauta transversal, instrumento que pratica e leciona até aos dias de hoje. Em 2001, integrou a banda da Marinha Portuguesa e, em 2008, foi convidado para pertencer ao projeto Orquestra Geração, onde desempenha atualmente a função de diretor artístico de sopros e percussão. Paralelamente, Bruno Santos encontra-se a frequentar o Mestrado em Ensino na Escola Superior de Artes Aplicadas, em Castelo Branco.

 

1. Como chegou até à Orquestra Geração?

Na altura, estava a trabalhava na Amadora, a dar aulas de música. Se bem me recordo, fui convidado pela professora Sandra Martins para fazer parte do projeto. Identifiquei-me logo com a Orquestra Geração e com os seus objetivos. No primeiro ano estive apenas a dar aulas, mas, no segundo ano, fui convidado pela professora Helena Lima e António Wagner Diniz para ficar com a parte da coordenação dos sopros e percussão, que mantenho até hoje, em conjunto com o professor Juan Maggiorani.

 

2. Enquanto diretor artístico de sopros e percussão, quais são os principais desafios que enfrenta no seu dia-a-dia? E principais recompensas?

A Orquestra Geração acaba por ser um projeto que requer adaptação constante. Não podemos levá-lo “à risca” porque as realidades são diferentes. As escolas e os professores são diferentes e, muitas vezes, temos de nos adaptar às realidades onde nos encontramos. Esse acaba por ser o meu maior desafio: perceber as adaptações que tenho de fazer ano após ano.

É muito importante poder contar com uma equipa de professores que tem essa predisposição e que tentam resolver as situações que vão aparecendo a nível pedagógico, repertório e técnica dos próprios instrumentos. Isto acaba por conjugar os desafios com as recompensas porque vemos que há evolução e que as coisas funcionam no final. O trabalho não é individual, mas sim de grupo, e isso é essencial porque acaba por funcionar quando vamos para os estágios, por exemplo. Este trabalho entre os professores acaba também por se refletir na forma como os alunos lidam uns com os outros.

 

3. Sente que estes desafios vão aumentando ano após ano?

Não sinto que haja mais dificuldades, mas a realidade é que há mais oferta e, quando falo em oferta, falo em atividades extracurriculares, como o futebol. Muitas vezes acabamos por perder alguns alunos porque têm outras atividades, mas também porque os nossos horários são ao final do dia escolar… Porém, continua a existir recetividade dos alunos para o nosso projeto.

Quando começámos com a seção de sopros, em 2008, estávamos concentrados numa só escola e a interação era muito mais facilitada. Atualmente, devido à expansão para mais escolas, estamos mais dispersos. No entanto, dentro de cada escola, observa-se a partilha de conhecimento entre os alunos mais novos e os mais experientes. Antigamente, isso era o mais desafiante porque estavam todos no mesmo nível e apenas se comparavam com os professores. A essência da Orquestra Geração reside precisamente nesta possibilidade, de querer chegar onde o colega chegou, com a ajuda dos colegas.

 

4. Como é que a música pode servir de meio para a inclusão social?

A música é uma linguagem universal, o que automaticamente contribuir para a inclusão porque todos falam a mesma linguagem e vão na mesma direção. Não há direções diferentes.

Os alunos que passam pela Orquestra Geração e que não seguem uma carreira musical, ao encontrá-los alguns anos depois, frequentemente dizem-me “ficou-me o aprender a estar em conjunto, a respeitar o colega, o trabalho de equipa” e acho que a inclusão acaba por ser isso. Na orquestra não temos como objetivo formar músicos, mas queremos que os alunos vão para a sociedade e que tenham uma boa educação, que se respeitem, e percebam que podem trabalhar em equipa (e que só funciona em equipa). No futebol, por exemplo, se um jogador falhar está a pôr em causa o trabalho de equipa e na orquestra é a mesma coisa.

Recentemente foi dado o exemplo dos alunos da Orquestra Geração numa escola porque acabaram por unir a turma de alunos que não pertencem apenas ao projeto. Inconscientemente não quer dizer que seja a responsabilidade da orquestra, mas, ao mesmo tempo, eles passam muito tempo a trabalhar em conjunto e isso vai criando um hábito, uma “educação”, e isso é das coisas mais importantes para a inclusão: é o aprender a estar na sociedade e a respeitar quem está ao lado, independentemente de ser mais ou menos ou de ser superior ou inferior hierarquicamente, porque acontece o mesmo connosco. Eles reconhecem que somos professores, mas é crucial estabelecer uma relação de partilha. Considero que aprendo significativamente com os alunos, mesmo que seja através dos novos desafios que me propõem e que tento resolver. Podem não estar conscientes, mas estão a contribuir para o meu crescimento.

 

5. Pode partilhar alguns desses desafios?

Os desafios que eu tenho tido não têm sido só a nível musical, mas a nível pessoal, com crianças que precisam de ajuda para trabalhar a auto-estima e confiança, e isso acaba por ser um grande desafio, o de poder ajudar a criança a ultrapassar e, quando dá conta, olha para trás e diz “afinal, eu consigo e sou capaz”.

Eles acabam por fazer as coisas a nível musical e não são diferentes dos alunos que estudam num conservatório, com um bocadinho de trabalho conseguem fazer. Agora, a nível pessoal e emocional tenho encontrado bastantes desafios. Por vezes olho para trás e vejo que consegui ultrapassar alguns destes desafios. Por exemplo, um aluno que exibe um sorriso por conseguir fazer uma passagem de um trecho musical. Esse aluno em concreto dizia-me sempre “eu não consigo” e depois consegue. Vejo que a auto-estima já aumentou um pouco e eu já vou para casa mais contente.

Eu costumo dizer, e não é mentira, que a Orquestra Geração é um projeto de vida. Sinto que é isto que eu quero fazer, independentemente de poder ser mais ou menos valorizado financeiramente. É importante referir também que este projeto tem crescido por isso, porque os professores que estão nele acreditam naquilo que está no terreno e que é possível. É como eu digo, não temos de ser génios na música, mas temos de transformar as crianças para que elas sejam felizes.

 

6. Que estratégias utilizam para motivar os alunos?

Nós, enquanto profissionais da música, devemos ir para uma sala de aula e pensar em objetivos a longo prazo. Não podemos pensar que vamos chegar ali e que eles vão começar logo a tocar.

Na parte afetiva e emocional, acho que é muito importante sermos nós próprios, não criarmos barreiras entre o professor e o aluno. É importante trabalhar essa parte emocional para que eles sintam que há uma pessoa amiga deste lado.

Acho que também é importante, por vezes, não pegar num instrumento e perceber o que é que se passa com o aluno. Perguntar como foi a escola, como estão os colegas… às vezes fazer questões mais pessoais e tentar abordar de uma foram a que ele se sinta à vontade para partilhar, e isso é o trabalho de quem vem trabalhar para a Orquestra Geração.

Não podemos pensar que isto é um conservatório de música e que os alunos vão atingir metas por graus. Os alunos vão andar mediante as suas capacidades para que se sintam realizados e nós temos de ter sempre isso em conta.

 

7. No seu percurso quais foram os momentos que mais o marcaram?

Há vários momentos que me marcaram. A nível musical, se calhar, o primeiro concerto em que nós conseguimos juntar toda a Orquestra, penso que foi na Gulbenkian.

A primeira vez que o Dudamel esteve em Portugal, ainda com o maestro António Abreu, na Miguel Torga. Este foi um momento especial porque estávamos a trabalhar um projeto que tem uma fonte e estivemos com as pessoas que permitiram que isto fosse possível.

O primeiro estágio que organizei a nível de sopros e percussão, que foi em Vialonga, em 2009, em que tínhamos um auditório com cento e tal crianças só de sopros e percussão. Foi aí que achei, a nível de coordenação, que isto era possível.

Um outro momento que mais me marca é o contacto que mantenho com alguns alunos que não estão na orquestra neste momento. Tive uma aluna, que seguiu flauta e está no Conservatório de Lisboa, mas acabou por regressar ao seu país de origem, na Roménia, e é uma referência a nível musical e está num patamar muito superior. Por exemplo, ela faz concursos, manda-me as suas gravações para pedir a opinião e ver este elo é maravilhoso.

Outro momento especial é poder ter a oportunidade de dar aulas ao lado de colegas que já foram meus alunos na orquestra. Sinto que há algo especial quando eles estão ao meu lado a dar aulas e isso vale a pena. No meu mestrado, por exemplo, tenho uma colega que foi minha ex-aluna e passar aquela fase aluno e professor, e sermos colegas, é muito gratificante.

 

8. Como vê o projeto no futuro?

Gostava de ver este projeto no futuro solidificado a nível nacional. Não devia ser um projeto para estar só na Área Metropolitana de Lisboa e em algumas regiões do centro.

É um projeto que tem tudo para expandir e acredito que vá solidificar-se mais, e até era bom para o país. Muitas vezes, a nível político, ficamo-nos apenas pelas grandes cidades e esquecemo-nos que no interior também existem muitas crianças que gostavam de ter esta oportunidade.

Este é um projeto que tem pernas para crescer pelo país, desde que quem a ele pertença perceba que isto é um projeto musical, mas que não se fica por aí. A Orquestra Geração também pode correr o risco de se perder por causa disso. Nunca se deve deixar de pensar na parte social. Sabemos que o projeto tem muito impacto, mas as pessoas vêm apenas a parte musical quando assistem aos concertos e não conhecem a realidade do trabalho que está por trás, das dificuldades que os professores e a direção passam para que as coisas aconteçam, e fazer acontecer não é fácil.